Tanga

31.03.2009

Ele serviu o chá dela,
e ela serviu o chá dele.
não se falavam há três dias.
deram cada um o primeiro gole.
e sorrindo ela disse:
- da próxima vez, coloque mais água para disfarçar o gosto do veneno.
então ele respondeu:
- não reclame do que nem você conseguiu fazer direito.
e viveram morreram felizes para sempre.

 

Não sei de onde tirei essa história originalmente, mas lembrei que a tinha usado no post (fotolog) da véspera do meu anivesário de 17 anos. Eu nem tava muito ligada nessa coisa de aniversário e tal, mas lembro que passei alguns dias rindo do comentário de Camila sobre esse post: 

 

ja q amanha eh teu niver…
tu n devia flr em morte hj…
+ td bem…
o flog eh teu… quem posta eh tu…
o problema eh teu…
e eu n tenho nd a v com isso…
ooooooo…
=****

Camila

 

Pense numa saudade que eu tou dessa menina! Ela não tem noção da metade do amor e da gratidão que eu sinto por ela, mas eu supero.  :)

Semáforo

29.03.2009

8h da manhã, indo para o estágio, sinal fechado.

Um garoto, com seus 10 e poucos anos, veio em minha direção. A primeira atitude que eu tomei foi quase automática: fechar o vidro. Ele continuou vindo como se eu não tivesse feito nada. Isso não chegou a me assustar, mas, de certa forma, eu esperava que ele desistisse de qualquer coisa que estivesse disposto a fazer. Eu não pensei que ele realmente fosse fazer algo, mas o fato é que às 8h da manhã eu só consigo pensar em duas coisas: dormir e tirar o pé da embreagem quando o sinal abrir. Fechar o vidro, portanto, foi quase como dizer “desculpe, minha atenção já está canalizada para outra coisa”.

O garoto bateu no vidro sibilando algo que o sono e o vidro não me deixaram compreender. Eu pensei em ignorá-lo, mas já estou suficientemente acostumada para saber que os sinais da Conselheiro Portela só abrem quando você já está plenamente convencido de que ele quebrou. Então, num gesto um pouco menos automático, eu abaixei um pouco o vidro para dizer que no momento não tinha nada para oferecê-lo. Enquanto abria o vidro, eu pensei mais na manivela do que na expressão que me encarava do lado de fora do carro, e acabei não reparando em seus olhos cheios d’água. Quando olhei seu rosto, não consegui falar o que tinha programado, apenas sustentei seu olhar e perguntei o que ele estava falando antes de eu abaixar o vidro. Ele baixou a cabeça e disse “foi mal, eu sei que eu sou um marginal, mas eu não queria assustar a senhora”. Depois disso, eu podia jurar que ele disse algo parecido com “bom dia”, mas os carros de trás começaram a buzinar e eu só pude ver o garoto se afastando em direção ao meio-fio. Eu movimentei o carro o mais devagar que pude, tentando ver se ele ainda olhava pra mim, mas uma van emparelhou entre mim e a calçada bloqueando minha visão.

Passei o dia pensando naqueles olhos cheios d’água. Pensando por que ele me pediu desculpas, quando eu é que deveria me desculpar por ser tão… cega! Que direito eu tenho de fazer uma garoto de 12 ou 13 anos ter plena certeza de que ele é um marginal? Ele parecia se sentir sujo e, pra ser sincera, eu devo ter agido como tal. Acho que nunca vou entender de verdade por que ele chorava; chego a achar também que eu mesma nunca vou chorar como antes, sem pensar que meus motivos são infinitamente menores que os daquele garoto, que até quando chora tem que encarar a hipocrisia e falta de atenção das pessoas.

Não costumo pedir muitas coisas a Deus, mas hoje eu desejei duas coisas do fundo do meu coração: que Ele não permita que eu morra sem antes ter experiência suficiente para entender as lágrimas de uma criança, nem que aquele garoto morra sem antes me perdoar.

Constatado.


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